quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

O ‘perigo’ já existia! 

É fato: os pequenos veículos eletrificados, sobretudo os de duas rodas, estão crescendo e ocupando cada vez mais espaço em nossas ruas. São bicicletas elétricas, ciclomotores, scooters e outros veículos que surgem em uma diversidade que a legislação pouco soube diferenciar quando o assunto é risco.

Mas há uma questão que parece estar sendo esquecida: o risco não está apenas na condução desses veículos. Está também no ambiente em que eles são obrigados a circular.

Há um evidente espanto das pessoas e uma crescente preocupação das autoridades com esse fenômeno. Questiona-se o crescimento desses veículos, a forma como são conduzidos e, especialmente, seu uso por menores de idade.

Diante disso, surge o clamor pela urgência de uma regulamentação local. O problema é que, na falta de um ambiente apropriado para esses novos modos de deslocamento, a resposta acaba sendo direcionada para a restrição: define-se em que tipo de via podem circular, estabelecem-se limites de velocidade e criam-se regras que, na prática, muitas vezes não terão fiscalização suficiente para serem cumpridas. 

E então chegamos a uma situação curiosa: cidades que praticamente não tinham infraestrutura cicloviária se veem de mãos atadas. Na calçada, não pode. Nas ruas, é perigoso.

Mas será que o perigo nasceu com a eletrificação?

O perigo apenas veio à tona, agora, enfeitado com uma bateria, um torque e uma velocidade maior, características que, evidentemente, podem tornar os sinistros ainda mais graves. Mas é preciso reconhecer que as vias já eram perigosas para pedestres e ciclistas muito antes da chegada desses veículos.

Da forma como está, é certo que temos um problema. Mas não é justamente o excesso de carros nas ruas um dos problemas que somos desafiados a resolver todos os dias?

Agora que temos uma alternativa que pode ajudar a enfrentar esse caos, passamos a encará-la também como um problema — a ponto de nossa primeira reação ser pensar na proibição.

O Estado do Paraná, por exemplo, regulamentou o uso desses veículos estabelecendo idade mínima de 16 anos. Mas a falta de orientação e sensibilização sobre as normas de trânsito não se restringe aos menores. Ela se aplica a todas as idades, inclusive aos maiores de 18 anos, teoricamente habilitados e autorizados a conduzir veículos muito mais pesados e perigosos.

Os menores são, sim, um problema quando seu comportamento e sua falta de instrução aumentam os riscos. Mas isso já não acontecia antes, quando eles se deslocavam de bicicleta ou a pé?

Não deveríamos aproveitar a disposição desses jovens para realizarem seus microdeslocamentos por meios leves e mais  eficientes?

Ou seria melhor para as cidades que cada um deles desistisse dessa alternativa e chamasse seus pais para colocarem nas ruas aproximadamente 1.000 kg de automóvel, ocupando uma dezena de metros quadrados de espaço público a cada saída de casa?

A pergunta pode parecer provocativa, mas é justamente essa contradição que precisamos enfrentar.

É inevitável pensar também na oportunidade que esses veículos representam. Agilidade, versatilidade e baixo custo podem oferecer aos usuários uma alternativa real para seus deslocamentos cotidianos. E os benefícios podem ultrapassar o indivíduo: menor demanda por espaço viário, menor necessidade de manutenção das vias, redução da poluição e diversificação do mercado e dos serviços são alguns dos efeitos possíveis.

Então, talvez seja necessário inverter a pergunta.

Será que perigosa é a tal proliferação desses veículos ou o próprio ambiente que construímos para recebê-los?

Um ambiente pensado, durante décadas, quase exclusivamente para a circulação de automotores em velocidade e com uma ocupação desproporcional do espaço público — justamente aquele espaço que deveria ser compartilhado entre diferentes modos de deslocamento.

As lesões e mortes envolvendo pedestres, ciclistas e usuários desses veículos eletrificados também nos lembram que não estamos diante de uma simples discussão sobre trânsito. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os acidentes envolvendo usuários vulneráveis das vias constituem uma questão de saúde pública.

Durante anos, governantes justificaram o não incentivo ao uso da bicicleta comum alegando que era perigoso. A cidade não estava preparada. Havia muitos morros. Chovia. Fazia frio. Fazia calor. A infraestrutura não existia.

Agora, diante de uma nova geração de veículos leves e eletrificados, vamos novamente recorrer ao mesmo argumento?

Vamos dizer que o ambiente não convém?

A quem convém, afinal? Apenas aos carros, sempre?

Talvez o desafio não seja decidir como impedir que esses veículos ocupem nossas ruas, mas como transformar nossas ruas para que possam recebê-los com segurança.

Porque, se cada nova alternativa de mobilidade for considerada um problema simplesmente porque nossas cidades não foram preparadas para ela, estaremos condenados a manter o mesmo modelo que já demonstrou seus limites.

Passou da hora de percebermos que o espaço público precisa ser compartilhado de uma maneira mais humana.

E talvez esses pequenos veículos, em vez de serem vistos apenas como uma ameaça, possam ser justamente parte da mudança que nossas cidades estão precisando.


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