RUA ANTONINA, Francisco Beltrão-PR
Um dos grandes desafios do urbanismo contemporâneo é lidar com as limitações impostas por cidades que cresceram sem planejamento adequado. Vias estreitas, traçados históricos e ocupações consolidadas frequentemente dificultam intervenções que atendam às demandas atuais de mobilidade, segurança e qualidade do espaço urbano. Nesses casos, as restrições físicas e sociais costumam ser usadas como justificativa para soluções aquém do ideal.
Entretanto, essa justificativa não se sustenta quando falamos da abertura de uma rua totalmente nova em meio ao tecido urbano já consolidado. Uma via que nasce hoje deveria refletir o conhecimento técnico acumulado ao longo das últimas décadas e incorporar princípios contemporâneos de mobilidade urbana, priorizando pessoas, segurança viária e integração com o espaço público. Em tese, seria uma oportunidade rara de fazer diferente e melhor.
No entanto, em pleno 2024, o que se observa é a criação de uma rua concebida com técnicas ultrapassadas, pensada exclusivamente para o fluxo de veículos e para a velocidade. Logo em seu trecho inicial, duas quadras que anteriormente possuíam uma calçada estreita tiveram esse espaço suprimido para o alargamento da pista. Onde se espera, algum dia, a existência de uma calçada adequada, postes de energia recém-instalados ocupam exatamente o espaço destinado aos pedestres.
As generosas faixas de rolamento funcionam como um convite ao excesso de velocidade. A própria sinalização horizontal, marcada por elementos refletivos típicos de rodovias, reforça essa lógica, como se o motorista precisasse de orientação especial [para encontrar seu caminho em um ambiente urbano que já deveria ser suficientemente iluminado. O desenho da via não apenas permite, mas incentiva comportamentos incompatíveis com a segurança urbana.
Às margens do rio mais emblemático da cidade, em um trecho que poderia abrigar áreas de convivência, lazer e contato com a paisagem natural, optou-se por instalar um guard-rail. A escolha remete mais a uma rodovia do que a uma rua urbana e pressupõe, de forma implícita, que os veículos circularão em velocidades que exigem esse tipo de contenção.
Após o avistamento de capivaras, representantes da fauna local, instala-se uma placa de advertência aos motoristas, posicionada próxima a uma faixa de pedestres que deveria garantir a travessia entre duas calçadas inexistentes. A sinalização cumpre um ritual burocrático, mas ignora a ausência da infraestrutura básica necessária para a segurança de quem caminha.
Para completar o cenário paradoxal, o traçado suave da conversão para outra via permite que a curva seja vencida em velocidades elevadas, incompatíveis com um ponto de interseção urbana. O desenho geométrico, mais uma vez, privilegia a fluidez veicular em detrimento da segurança.
Apesar de tudo isso, a via já é utilizada por pedestres e ciclistas, tanto para deslocamentos cotidianos quanto para lazer, favorecida por seu baixo declive e localização estratégica. Com a conclusão das duas grandes obras atualmente em andamento na região, é inevitável que o fluxo de pessoas e veículos aumente de forma significativa. E já paira no ar a dúvida: quanto tempo levará até que surja a pressão para transformar o novo calçadão do centro cívico em mais um espaço de estacionamento?
O caso expõe uma questão central: não se trata de falta de espaço, nem de herança histórica. Trata-se de escolha. Quando até uma rua nova nasce velha, é legítimo questionar quais valores estão, de fato, orientando a função e significado do espaço público, que além de servir para o ir e vir, serve para o estar.


Velozes e Incapazes
Todos sabemos que os seres humanos, por mais atléticos que tentamos ser,
desenvolvemos uma velocidade máxima de apenas 20 a 30 km/h, por curtíssimo tempo
e naturalmente por isso, nossos reflexos e ângulo de visão foram adaptados a
enfrentar o inesperado pelo caminho, nessa mesma velocidade. Mas sobre as rodas
ou asas dos diferentes veículos que orgulhosamente criamos, podemos aplicar
velocidades muito superiores, no entanto, é natural que quanto maior a
velocidade, mais incapazes nos tornamos sobre o controle de ações eventualmente
inesperadas. Parte disso está por trás dos motivos que levou a obrigação dos
motoristas respeitarem um limite de velocidade de 40 km/h ou até menos, em vias
urbanas, ou próximo a uma escola, por exemplo. Quanto mais velocidade imprimimos
em nossos veículos, mais nosso raio de visão periférica reduz, e menos tempo de
reação dispomos, potencializando os riscos. Não é por acaso que o excesso de
velocidade é a principal causa de sinistros de trânsito graves no Brasil. Graves
porque a velocidade tem uma relação exponencial com a gravidade do impacto. Um
eventual atropelamento em uma via urbana, a uma velocidade de 30 km/h, o risco
de morte ou lesão grave em uma pessoa é de 10%, a 40 km/h, esse mesmo risco
salta para 30% e a 60 km/h, chega a 98%. E mesmo que nossos reflexos funcionem
perfeitamente e em tempo, o espaço linear mínimo necessário para evitar a
colisão é de 14 metros quando a 30 km/h, 26 metros a 40 km/h e de 62 metros a 60
km/h. Também em razão disso que muitas políticas públicas de planejamento das
vias, baseadas no objetivo de zero mortes no trânsito e que nenhuma morte é
aceitável, estão assumindo que eventualmente ou quase sempre existirão motivos
que levam nossas reações a falhar, e portanto, as consequências é que precisam
ser minimizadas ou evitadas. Uma senhora que precisa fazer a travessia de uma
movimentada rua em que a velocidade máxima é de 60 km/h, não pode pagar com a
vida, pelo fato de ter errado um passo. Respeitar os limites de velocidade da
via pode adicionar apenas alguns segundos ou poucos minutos no seu deslocamento,
criando uma certa monotonia diante da nossa correria do dia a dia, mas passe a
observar na sua cidade, diante do seu volante e velocímetro, o quanto pode estar
criando ambientes de risco, apenas por ultrapassar meros 5 ou 10 km/h a mais da
velocidade permitida. Ainda podendo potencializar a promoção desse risco
agregando a velocidade com o manuseio do celular. Porém no trânsito, todo
sinistro envolve um conjunto de responsabilidades, portanto, a realidade
descrita não depende apenas do respeito a velocidade por parte dos motoristas,
mas também é crucial que a regulamentação de velocidades apropriadas para o real
ambiente da via, assim como a necessidade de implementação de infraestruturas de
sinalização e de formato de vias que desencoraje os motoristas a praticarem
maiores velocidades. Não podemos esperar apenas arranhões em sinistros ocorridos
nas vias com faixas de rolamento amplas, semáforos sincronizados e sem redutores
de velocidade, por mais que a sinalização indique apenas 30 km/h.
https://outrasvias.files.wordpress.com/2011/02/naofoiacidente-tcn.jpg