É fato: os pequenos veículos eletrificados, sobretudo os de duas rodas, estão crescendo e ocupando cada vez mais espaço em nossas ruas. São bicicletas elétricas, ciclomotores, scooters e outros veículos que surgem em uma diversidade que a legislação pouco soube diferenciar quando o assunto é risco.
Mas há uma questão que parece estar sendo esquecida: o risco não está apenas na condução desses veículos. Está também no ambiente em que eles são obrigados a circular.
Há um evidente espanto das pessoas e uma crescente preocupação das autoridades com esse fenômeno. Questiona-se o crescimento desses veículos, a forma como são conduzidos e, especialmente, seu uso por menores de idade.
Diante disso, surge o clamor pela urgência de uma regulamentação local. O problema é que, na falta de um ambiente apropriado para esses novos modos de deslocamento, a resposta acaba sendo direcionada para a restrição: define-se em que tipo de via podem circular, estabelecem-se limites de velocidade e criam-se regras que, na prática, muitas vezes não terão fiscalização suficiente para serem cumpridas.
E então chegamos a uma situação curiosa: cidades que praticamente não tinham infraestrutura cicloviária se veem de mãos atadas. Na calçada, não pode. Nas ruas, é perigoso.
Mas será que o perigo nasceu com a eletrificação?
O perigo apenas veio à tona, agora, enfeitado com uma bateria, um torque e uma velocidade maior, características que, evidentemente, podem tornar os sinistros ainda mais graves. Mas é preciso reconhecer que as vias já eram perigosas para pedestres e ciclistas muito antes da chegada desses veículos.
Da forma como está, é certo que temos um problema. Mas não é justamente o excesso de carros nas ruas um dos problemas que somos desafiados a resolver todos os dias?
Agora que temos uma alternativa que pode ajudar a enfrentar esse caos, passamos a encará-la também como um problema — a ponto de nossa primeira reação ser pensar na proibição.
O Estado do Paraná, por exemplo, regulamentou o uso desses veículos estabelecendo idade mínima de 16 anos. Mas a falta de orientação e sensibilização sobre as normas de trânsito não se restringe aos menores. Ela se aplica a todas as idades, inclusive aos maiores de 18 anos, teoricamente habilitados e autorizados a conduzir veículos muito mais pesados e perigosos.
Os menores são, sim, um problema quando seu comportamento e sua falta de instrução aumentam os riscos. Mas isso já não acontecia antes, quando eles se deslocavam de bicicleta ou a pé?
Não deveríamos aproveitar a disposição desses jovens para realizarem seus microdeslocamentos por meios leves e mais eficientes?
Ou seria melhor para as cidades que cada um deles desistisse dessa alternativa e chamasse seus pais para colocarem nas ruas aproximadamente 1.000 kg de automóvel, ocupando uma dezena de metros quadrados de espaço público a cada saída de casa?
A pergunta pode parecer provocativa, mas é justamente essa contradição que precisamos enfrentar.
É inevitável pensar também na oportunidade que esses veículos representam. Agilidade, versatilidade e baixo custo podem oferecer aos usuários uma alternativa real para seus deslocamentos cotidianos. E os benefícios podem ultrapassar o indivíduo: menor demanda por espaço viário, menor necessidade de manutenção das vias, redução da poluição e diversificação do mercado e dos serviços são alguns dos efeitos possíveis.
Então, talvez seja necessário inverter a pergunta.
Será que perigosa é a tal proliferação desses veículos ou o próprio ambiente que construímos para recebê-los?
Um ambiente pensado, durante décadas, quase exclusivamente para a circulação de automotores em velocidade e com uma ocupação desproporcional do espaço público — justamente aquele espaço que deveria ser compartilhado entre diferentes modos de deslocamento.
As lesões e mortes envolvendo pedestres, ciclistas e usuários desses veículos eletrificados também nos lembram que não estamos diante de uma simples discussão sobre trânsito. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os acidentes envolvendo usuários vulneráveis das vias constituem uma questão de saúde pública.
Durante anos, governantes justificaram o não incentivo ao uso da bicicleta comum alegando que era perigoso. A cidade não estava preparada. Havia muitos morros. Chovia. Fazia frio. Fazia calor. A infraestrutura não existia.
Agora, diante de uma nova geração de veículos leves e eletrificados, vamos novamente recorrer ao mesmo argumento?
Vamos dizer que o ambiente não convém?
A quem convém, afinal? Apenas aos carros, sempre?
Talvez o desafio não seja decidir como impedir que esses veículos ocupem nossas ruas, mas como transformar nossas ruas para que possam recebê-los com segurança.
Porque, se cada nova alternativa de mobilidade for considerada um problema simplesmente porque nossas cidades não foram preparadas para ela, estaremos condenados a manter o mesmo modelo que já demonstrou seus limites.
Passou da hora de percebermos que o espaço público precisa ser compartilhado de uma maneira mais humana.
E talvez esses pequenos veículos, em vez de serem vistos apenas como uma ameaça, possam ser justamente parte da mudança que nossas cidades estão precisando.





Velozes e Incapazes
Todos sabemos que os seres humanos, por mais atléticos que tentamos ser,
desenvolvemos uma velocidade máxima de apenas 20 a 30 km/h, por curtíssimo tempo
e naturalmente por isso, nossos reflexos e ângulo de visão foram adaptados a
enfrentar o inesperado pelo caminho, nessa mesma velocidade. Mas sobre as rodas
ou asas dos diferentes veículos que orgulhosamente criamos, podemos aplicar
velocidades muito superiores, no entanto, é natural que quanto maior a
velocidade, mais incapazes nos tornamos sobre o controle de ações eventualmente
inesperadas. Parte disso está por trás dos motivos que levou a obrigação dos
motoristas respeitarem um limite de velocidade de 40 km/h ou até menos, em vias
urbanas, ou próximo a uma escola, por exemplo. Quanto mais velocidade imprimimos
em nossos veículos, mais nosso raio de visão periférica reduz, e menos tempo de
reação dispomos, potencializando os riscos. Não é por acaso que o excesso de
velocidade é a principal causa de sinistros de trânsito graves no Brasil. Graves
porque a velocidade tem uma relação exponencial com a gravidade do impacto. Um
eventual atropelamento em uma via urbana, a uma velocidade de 30 km/h, o risco
de morte ou lesão grave em uma pessoa é de 10%, a 40 km/h, esse mesmo risco
salta para 30% e a 60 km/h, chega a 98%. E mesmo que nossos reflexos funcionem
perfeitamente e em tempo, o espaço linear mínimo necessário para evitar a
colisão é de 14 metros quando a 30 km/h, 26 metros a 40 km/h e de 62 metros a 60
km/h. Também em razão disso que muitas políticas públicas de planejamento das
vias, baseadas no objetivo de zero mortes no trânsito e que nenhuma morte é
aceitável, estão assumindo que eventualmente ou quase sempre existirão motivos
que levam nossas reações a falhar, e portanto, as consequências é que precisam
ser minimizadas ou evitadas. Uma senhora que precisa fazer a travessia de uma
movimentada rua em que a velocidade máxima é de 60 km/h, não pode pagar com a
vida, pelo fato de ter errado um passo. Respeitar os limites de velocidade da
via pode adicionar apenas alguns segundos ou poucos minutos no seu deslocamento,
criando uma certa monotonia diante da nossa correria do dia a dia, mas passe a
observar na sua cidade, diante do seu volante e velocímetro, o quanto pode estar
criando ambientes de risco, apenas por ultrapassar meros 5 ou 10 km/h a mais da
velocidade permitida. Ainda podendo potencializar a promoção desse risco
agregando a velocidade com o manuseio do celular. Porém no trânsito, todo
sinistro envolve um conjunto de responsabilidades, portanto, a realidade
descrita não depende apenas do respeito a velocidade por parte dos motoristas,
mas também é crucial que a regulamentação de velocidades apropriadas para o real
ambiente da via, assim como a necessidade de implementação de infraestruturas de
sinalização e de formato de vias que desencoraje os motoristas a praticarem
maiores velocidades. Não podemos esperar apenas arranhões em sinistros ocorridos
nas vias com faixas de rolamento amplas, semáforos sincronizados e sem redutores
de velocidade, por mais que a sinalização indique apenas 30 km/h.