quarta-feira, 6 de março de 2024
'Não foi acidente'
Aquilo que aprendemos a chamar de ‘acidente de trânsito’ ao longo do tempo, em muitos casos não é, ou não foi. Acidente é qualquer eventualidade inesperada e que como consequência, gerou algum tipo de dano, por isso o nome atualmente recomendado pela ABNT é SINISTRO. Então, na verdade, por trás de um evento de trânsito em que algum dos envolvidos infringiu uma ou mais das várias normas pré-determinadas legalmente, teoricamente não podemos considera-lo como ‘acidente’, tendo em vista que cada norma, ao não ser respeitada, é considerada uma infração, justamente por que a sua prática pode gerar ou potencializar as situações que chamamos de ‘acidente’ e teoricamente os envolvidos tem conhecimento prévio sobre as mesmas.
Portanto, muitas vidas perdidas, mais as infinitas sequelas produzidas sobre o asfalto das cidades e rodovias, poderiam ter sido evitadas.
E assim como aprendemos erroneamente a chamar todo e qualquer colisão, atropelamento, capotamento, quedas, etc, de ‘acidente’, também nos reduzimos, junto com as autoridades, a apenas discernir quem estava certo e quem estava errado, poucas vezes buscando razões técnicas, além das razões humanas, como a imprudência e o erro, por exemplo.
Nesse sentido, às vezes por falta de prioridade no direcionamento dos recursos das gestões públicas e por vezes devido ao lamentável desconhecimento dos gestores e do seu corpo técnico, as cidades não buscam respostas para os ‘acidentes’ de trânsito para além do não respeito as normas, nem mesmo criam estruturas físicas necessárias para redução ou eliminação dos ‘acidentes’.
Mesmo havendo toda sinalização adequada de velocidade máxima permitida ou de via preferencial, por exemplo, associado a constante campanhas educativas, sempre teremos cidadãos que em algum momento, não respeitarão as normas, por motivos diversos e poderão gerar um ‘acidente’. A exemplo de um cruzamento qualquer que possui um histórico de ‘acidentes’, como sabe-se que dificilmente chegará a zero o número de pessoas que não infringirão qualquer norma, precisamos, de algum modo, garantir que quando houver o erro, a desatenção, a negligência ou a imprudência, os danos gerados por esse ‘acidente’ sejam menores ou inexistentes. Esse princípio vale para inúmeras técnicas e estruturas das vias que visam não necessariamente eliminar qualquer possibilidade de ‘acidente’, como redutores de velocidade, lombadas, e demais sinalizações, mas reduzir os danos, quando ele acontecer.
Resumindo, as vias precisam oferecer mais do que somente sinalização para orientar os usuários, mas também de intervenções físicas em determinados locais com intuito de reduzir os riscos ou os danos causados pelos supostos ‘acidentes’. Mas consequentemente, intervir nas vias de modo a acalma-las ou torna-las mais seguras e completas para todos modais, pode comprometer a velocidade e fluidez de veículos, o que desagrada muitos usuários motorizados, no entanto, a pressa de ninguém pode ser mais importante que a vida.
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