segunda-feira, 4 de março de 2024

AUTONORAMA

É nítido para qualquer um que as ruas andam abarrotadas de veículos em nossas cidades, mas você sabia que já em 1920, a indústria automobilística americana já se preocupava com uma possível saturação de ruas e dos carros como bem de consumo? E que diante do crescimento de pedestres feridos, se organizava em campanhas para dar prioridade aos motoristas nas ruas? Desencorajando os pedestres, os transferindo a culpa, com um discurso cientificista de desmonte do transporte público coletivo, como aconteceu com os bondes nas grandes cidades do século XIX e consequente multiplicação dos automóveis, na falsa promessa do transporte confortável, onipresente, eficiente, acessível, seguro, de status e de velocidade. Certamente também não sabemos sobre a montanha de dinheiro, inclusive público, que desde essa época, foi exclusivamente destinada a alimentar tal ilusão futurística de atender o transporte, por meio do carro, das avenidas, das estradas e dos destinos cada vez mais distantes nas cidades. Ao longo de todo esse tempo, com diferentes níveis de ‘tecnologia ou eletrônica embarcada’, a indústria foi mantendo o consumidor, cada vez mais insatisfeito e de propósito. Essas informações ou abordagem sobre esse fenômeno estão compiladas num recente livro traduzido ao português, do historiador Peter Norton, intitulado “Autonorama, uma breve história sobre carros ‘inteligentes’, ilusões tecnológicas e outras trapaças da indústria automotiva”. Vale um destaque de exemplo detalhado no referido livro, sobre a busca incessante e histórica por uma automatização dos veículos, pelos quais se prometia eliminar acidentes e congestionamentos e sob todos holofotes do governo e mídia americana da época. Com muito custo, pesquisa e recursos, em um pequeno trecho de uma rodovia da Califórnia, conseguiu-se enfileirar um pelotão de 8 automóveis que se comunicavam entre si e estruturas magnéticas no piso da via, de modo que mantinham distâncias entre si automaticamente sem colidirem, assim revelando um passo para a o sonhado êxito do experimento. Norton resumiu que na melhor das hipóteses, os veículos em alta velocidade emulavam um trem ferroviário mais ineficiente do mundo, com 2 passageiros por vagão, cada um exigindo seu próprio motor e sistemas de alta tecnologia. Norton adverte que, mesmo diante da tecnologia automotiva, eletrônica ou robótica, uma simples chave de fenda não pode substituir um martelo nas funções de resolução de problemas, por isso as necessidades de mobilidade mais essenciais possam ser bem atendidas com as ferramentas que já temos, até porque a inovação real não é o mesmo que inovação de alta tecnologia. E que a sociedade atual, precisa participar das escolhas. Ainda na década de 1930, como solução às mortes, a engenharia passou a pensar em futuras rodovias infalíveis, capazes de eliminar acidentes e congestionamentos com alto nível de segurança, com o argumento, por exemplo, de que separação em nível nos cruzamentos e separação de fluxo de tráfego opostos eliminariam os problemas. Seriam respectivamente, as raízes do nosso gosto atual por trincheiras nas nos cruzamentos movimentados e por binários, avenidas ou pistas duplicadas? Ao longo desse tempo todo, os projetos rodoviaristas dentro e fora das cidades nos EUA e em outros países sob sua influência, levaram muitos a dirigir não por escolha, mas por necessidade, sobretudo devido a forte influência que os carros tiveram e ainda exercem sobre o modelo de urbanismo e desenvolvimento das cidades, criando distâncias e espaços desnecessários, limitando as condições básicas para o transporte coletivo e ativo, como a simples mobilidade de andar a pé ou de bicicleta. Diante desse contexto ilustrado por Norton e a eminente crise climática global, também não há como pensar um mundo sem rever a hegemonia do carro nas cidades e que o sustenta desde sempre.

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