segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Rua Antonina

 RUA ANTONINA, Francisco Beltrão-PR

Um dos grandes desafios do urbanismo contemporâneo é lidar com as limitações impostas por cidades que cresceram sem planejamento adequado. Vias estreitas, traçados históricos e ocupações consolidadas frequentemente dificultam intervenções que atendam às demandas atuais de mobilidade, segurança e qualidade do espaço urbano. Nesses casos, as restrições físicas e sociais costumam ser usadas como justificativa para soluções aquém do ideal.

Entretanto, essa justificativa não se sustenta quando falamos da abertura de uma rua totalmente nova em meio ao tecido urbano já consolidado. Uma via que nasce hoje deveria refletir o conhecimento técnico acumulado ao longo das últimas décadas e incorporar princípios contemporâneos de mobilidade urbana, priorizando pessoas, segurança viária e integração com o espaço público. Em tese, seria uma oportunidade rara de fazer diferente e melhor.

No entanto, em pleno 2024, o que se observa é a criação de uma rua concebida com técnicas ultrapassadas, pensada exclusivamente para o fluxo de veículos e para a velocidade. Logo em seu trecho inicial, duas quadras que anteriormente possuíam uma calçada estreita tiveram esse espaço suprimido para o alargamento da pista. Onde se espera, algum dia, a existência de uma calçada adequada, postes de energia recém-instalados ocupam exatamente o espaço destinado aos pedestres.

As generosas faixas de rolamento funcionam como um convite ao excesso de velocidade. A própria sinalização horizontal, marcada por elementos refletivos típicos de rodovias, reforça essa lógica, como se o motorista precisasse de orientação especial [para encontrar seu caminho em um ambiente urbano  que já deveria ser suficientemente iluminado. O desenho da via não apenas permite, mas incentiva comportamentos incompatíveis com a segurança urbana.

Às margens do rio mais emblemático da cidade, em um trecho que poderia abrigar áreas de convivência, lazer e contato com a paisagem natural, optou-se por instalar um guard-rail. A escolha remete mais a uma rodovia do que a uma rua urbana e pressupõe, de forma implícita, que os veículos circularão em velocidades que exigem esse tipo de contenção.

 Após o avistamento de capivaras, representantes da fauna local, instala-se uma placa de advertência aos motoristas, posicionada próxima a uma faixa de pedestres que deveria garantir a travessia entre duas calçadas inexistentes. A sinalização cumpre um ritual burocrático, mas ignora a ausência da infraestrutura básica necessária para a segurança de quem caminha.

Para completar o cenário paradoxal, o traçado suave da conversão para outra via permite que a curva seja vencida em velocidades elevadas, incompatíveis com um ponto de interseção urbana. O desenho geométrico, mais uma vez, privilegia a fluidez veicular em detrimento da segurança.

Apesar de tudo isso, a via já é utilizada por pedestres e ciclistas, tanto para deslocamentos cotidianos quanto para lazer, favorecida por seu baixo declive e localização estratégica. Com a conclusão das duas grandes obras atualmente em andamento na região, é inevitável que o fluxo de pessoas e veículos aumente de forma significativa. E já paira no ar a dúvida: quanto tempo levará até que surja a pressão para transformar o novo calçadão do centro cívico em mais um espaço de estacionamento?

O caso expõe uma questão central: não se trata de falta de espaço, nem de herança histórica. Trata-se de escolha. Quando até uma rua nova nasce velha, é legítimo questionar quais valores estão, de fato, orientando a função e significado do espaço público, que além de servir para o ir e vir, serve para o estar.

Rua Antonina

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